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Professores contam o que viveram durante a ditadura militar na UnB

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Data Publicação

01/04/2025

04:00h

"Era uma coisa terrivel, eles pegavam os alunos e jogavam dentro do camburoes, fechavam e levavam para a cadeia. Tinha um policial maior, de uns dois metros, gigante, o chamavamos de King Kong. Ele levantava dois meninos de uma vez", lembra-se o professor da Universidade de Brasilia (UnB) Volnei Garrafa, de 79 anos.

Ha cinco decadas andando pelos corredores do campus, ele se recorda do periodo da ditadura com detalhes, como se fosse, ainda ontem, 6 de junho de 1977, quando militares invadiram a universidade apos discentes e docentes declararem greve contra as agressoes sofridas. "Houve bombas, policia espalhada pela universidade. Sessenta e dois alunos foram expulsos, mais da metade foram presos, enquadrados na Lei de Seguranca Nacional. Quatro deles eram meus estudantes. Essas pessoas nunca voltaram para a universidade."

Professor Volnei Garrafa, um dos responsaveis pela criacao da Associacao de Professores da Universidade de Brasilia (ADUnB)

Segundo o professor, que foi diretor da Associacao de Docentes da UnB (ADUnB) durante as decadas de repressao, lecionar era uma constante pressao. "Durante uma aula no subsolo tive que expulsar um militar infiltrado. O reitor comecou a ficar de olho em mim. Eram tempos em que viviamos com medo, a gente nao dormia", contou. Em 1985, no fim do regime, o docente descobriu que corria mais perigo do que imaginava. "Quando terminou a ditadura, ainda existia um Departamento de Seguranca e Informacao na UnB. Em listas escondidas la, encontrei o meu nome, e de outros colegas, como individuos perigosos, como alvos."

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Ha exatos 61 anos, o pais acordava em meio a uma ditadura militar que perduraria 23 anos. Quem nasceu em 1964 so conheceria a democracia com seus 20 e poucos anos. Muitos dos jovens da epoca enfrentaram perseguicoes.

Professor aposentado da UnB, Marco Antonio Rodrigues Dias, 86 anos, recorda a epoca em que foi vice-reitor da universidade, quando o reitor era o comandante de Mar e Guerra Jose Carlos de Almeida Azevedo. "Quando fui nomeado ao cargo, nao tinha como dar certo. Realmente nao deu", disse Rodrigues. Segundo ele, havia na epoca o Decreto Lei 477, uma norma que definia infracoes disciplinares para alunos, professores, funcionarios e empregados de instituicoes de ensino. "Na UnB ele nao se aplicava, porque o regimento interno da universidade era mais duro que o decreto", comentou.

O professor relatou que eram aplicadas diversas punicoes contra os alunos, muitos jubilados indevidamente de seus cursos. "Um dia o capitao de Mar e Guerra me pegou em um canto e me questionou por ser contra as punicoes. O principio dele era de que esses estudantes expulsos eram como celulas cancerigenas, que tinham que ser eliminadas para salvar o organismo", comentou. "Quando terminou essa conversa e eu voltava para casa, avisei a minha mulher que havia criado um grande problema. Sabia que a partir daquele dia ele faria o que pudesse para me destruir, e assim aconteceu".

Rodrigues conta que, durante quatro anos de seu cargo como vice-reitor, foi impedido de trabalhar. "Todas as atribuicoes de meu cargo foram retiradas, o capitao me proibiu de trabalhar. Nesse periodo, investigaram toda a minha vida. Tive os telefones grampeados, em casa e na faculdade", ressaltou.

Em meio a tensao, Rodrigues resistia no cargo. Segundo ele, pelos seus alunos. Nomeado paraninfo dos formandos em medicina da UnB do 2º periodo de 1977, o professor discursou, em janeiro de 1978, palavras de esperanca aos seus alunos. "Estamos vivendo momentos importantes no pais e creio que nao e tempo para pessimismos, nao se admitindo tampouco o conformismo. A festa de formatura nao deve ser hora nem de ressentimentos, nem de frustracoes. Com base no passado, vivendo intensamente o presente, e preciso olhar o futuro", afirmou.

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Uma das alunas do professor, do curso de jornalismo, viu a ditadura pelos olhos de uma estudante e, mais ainda, como mulher de um homem preso pelo regime. Em seu romance autobiografico O Indizivel Sentido do Amor, a escritora e ex-professora da UnB Rosangela Vieira Rocha, 72, investigou a historia do marido, Jose Antonio Simoes Filho, militante do Partido Revolucionario dos Trabalhadores, apos sua morte ha mais de uma decada. O casal se conheceu na UnB, quando Jose voltou do Rio de Janeiro para concluir o curso.

O fisico nao contava nada sobre seus dias de carcere. "Eu descobri que quem e torturado nunca, ou pouco, fala sobre. O trauma e grande, e uma ferida que a pessoa nao quer revisitar", disse a escritora. Quando conheceu Jose, em seus primeiros anos na UnB, ele havia acabado de voltar da prisao de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde esteve preso por nove meses, apos outros tres meses torturado no DOPS. "Ele tinha um problema no ombro. As vezes, o braco dele 'se soltava', era algum tipo de lesao nos tendoes. Depois de muitos anos de casados, ele fez a cirurgia para corrigir e, entao, me contou que havia sido machucado quando foi preso, ao ser algemado. Usaram muita forca", contou.

Seu marido, apos formar-se na universidade, passou a lecionar, ainda nos anos 1970, mas nao permaneceu muito no cargo. "Na epoca, nao entendi por que ele nao ficou. Depois me contou, brevemente, que achava estar sendo vigiado, perseguido de alguma forma. Como se estivessem de olho no que ele fazia. Simplesmente nao havia mais clima para estar ali", disse Rosangela. "Penso que pessoas como ele se questionavam sempre se estavam paranoicos. Mas nao era paranoia, as coisas estavam realmente acontecendo", completou.

Jose morreu em 2012, vitima de uma infeccao. Cinco anos depois, Rosangela passou a escrever sua obra. "Primeiro sofri o luto, aquele luto bravo, nao consegui escrever nada. Depois veio vindo, precisava escrever", contou Rosangela, que se reconecta com a trajetoria do marido, por quem diz ser para sempre apaixonada, por meio da investigacao de suas memorias na ditadura.

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Na ultima sexta-feira foi lancado, na UnB, o Observatorio de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (Obdes), idealizado pela universidade em parceria com o Ministerio dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). A iniciativa, que reune 17 pesquisadores de instituicoes de Brasilia, do Rio de Janeiro e de Sao Paulo, visa produzir conhecimento sobre as circunstancias, dinamicas e causas dos desaparecimentos no pais, subsidiando politicas publicas.

o lancamento do projeto ocorreu em um dia simbolico, o aniversario de Honestino Guimaraes, ex-estudante da UnB e lider estudantil, que completaria 78 anos em 2025. Aos 26 anos de idade, foi preso por agentes do Centro de Informacoes da Marinha (Cenimar), em 10 de outubro de 1973, apos ter sido expulso da universidade, em 1968. Em 1996, apos 20 anos sem resposta, a familia recebeu um atestado de obito pelo governo federal, que reconheceu a responsabilidade pelo desaparecimento de Honestino.

"Falar sobre a memoria do golpe militar e da ditadura que se seguiu a ele e importante para reativar a lembranca de tempos dificeis, de ataques fortes a democracia, em que varias pessoas da comunidade universitaria desapareceram e foram expulsas da universidade", afirmou a reitora da Universidade de Brasilia, Rozana Naves. "O Observatorio e um instrumento que, para alem de desenvolver uma importante politica publica no Brasil, em parceria com o governo federal, pretende reparar danos historicos causados a essas familias", completa.

Por Bruna Pauxis