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Aldo Paviani: a história do professor desbravador de Brasília

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Data Publicação

23/03/2025

06:00h

O geografo Aldo Paviani, 91 anos, professor emerito da Universidade de Brasilia (UnB), e mais que pioneiro: respira e inspira a cidade que escolheu para viver e estudar. Detalhes da construcao e transformacao do Plano Piloto, assim como da evolucao da capital, que hoje abriga outras 34 regioes administrativas, borbulham com precisao e vivacidade na mente do pesquisador.

Gaucho de Erechim, na regiao do Alto Uruguai, e o cacula de Adelia e Narciso, que trabalhou cortando pedras de basalto para construir o edificio que hoje abriga uma vinicola. "No municipio, tem um lugar que, quando o rio Uruguai esta muito baixo, voce fica com um pe no Rio Grande do Sul e o outro, em Santa Catarina", conta, bem- -humorado, mas lamenta nunca ter tido a chance de testemunhar o fenomeno. O irmao mais velho, Mansueto, mora ate hoje na cidade natal. "E um irmao espetacular, porque ele se sacrificou para eu fazer faculdade. Ficou cuidando dos meus pais", emociona-se.

Seu Narciso morreu aos 82 anos e Adelia, aos 76. "Acho que a vida deles ate foi bastante longa, porque tinha um esforco fisico grande. Mas sempre, minha mae, mais do que meu pai, quiseram que eu estudasse", relata. O pai tambem era fotografo e eternizou um momento dificil para a familia, a perda da irma, que morreu logo apos o nascimento. "Ele fotografou a menina que faleceu, foi uma pena. Queria tanto ter tido uma irma, ou duas", sorri Aldo, com ternura.

A primeira experiencia como professor foi no Servico Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), ja em Porto Alegre, enquanto cursava geografia e historia na Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul. Ainda registrou uma passagem como contabilista na Contadoria-Geral do Rio Grande do Sul e foi nomeado secretario de uma escola em Canoas, municipio cerca de 20km distante da capital gaucha, a noite. "Eu saia das aulas na PUC correndo, pegava o onibus e ia abrir a escola."

A mudanca para Santa Maria teve como motivacao o amor pela tambem professora Therezinha Isaia Paviani. Os dois se conheceram em Porto Alegre. "Ela ia passando na rua da praia, toda de vermelho, e me encantei, fui acompanhando", recorda-se, com riqueza de detalhes. Quando Therezinha passou em frente a um bar, Aldo se aproximou e perguntou: "A senhora quer um refrigerante?". A resposta veio certeira: "Mas voce e muito atrevido!", observou Therezinha. O professor relembra o encontro aos risos, e diz que ela aceitou um Guarana. O desfecho, Brasilia conheceu muito bem.

O casal, que por meses manteve um namoro a distancia e por cartas, se casou na escola de freiras onde ela dava aulas e, anos depois, seria pioneiro na UnB. Therezinha era biologa e participou da criacao de ao menos dois departamentos na federal. Aldo, por sua vez, e um dos responsaveis pela criacao da Geografia tanto em Brasilia quanto na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde ambos lecionaram. "Isso e uma coisa que ninguem me tira. Eu gosto de criar coisas", atesta.

"Eu vim de Santa Maria requisitado pela UnB", relata, detalhando o processo, que ocorreu durante a ditadura militar. Mudou-se com a mulher para a nova capital em 1969, com a missao de ficar por um ano. Foi preciso convence-la. O argumento de que seria um ponto central para as viagens que o casal sempre adorou fazer funcionou. Um ano viraram dois, que viraram quatro e se tornaram uma vida inteira de dedicacao e de pioneirismo na capital da Republica.

Therezinha morreu em 31 de outubro de 2014, por complicacoes causadas pela doenca de Parkinson. "Eu sempre digo que, em vez de fazer tanta bomba, Estados Unidos, Russia e China deveriam descobrir um medicamento, um modo de acabar com o Parkinson."

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A UFSM nao aceitou facil a permanencia de Aldo e de Therezinha na UnB. Houve protestos. Mas uma lei amparava a escolha, permitindo que se habilitassem pela origem ou pelo destino. E Brasilia se tornou o destino do jovem casal. "Cheguei aqui em 1º de julho de 1969. E nao retornei mais para o Sul." As visitas a terra de origem sao frequentes, no entanto, para ver Mansueto, hoje com 95 anos. As filhas, Cilene, Lucia e Silvia, sao as companheiras nessas empreitadas.

Naquele inicio da decada de 1970, Brasilia se erguia e a UnB, tambem. "Para se ter uma ideia, o estacionamento da Ala Sul do Minhocao era todo em terra e o proprio Minhocao so ia ate a entrada principal", relembra-se Aldo, sobre a construcao do Instituto Central de Ciencias (ICC), principal edificio do primeiro campus da UnB, o Darcy Ribeiro, na Asa Norte.

Guindastes se espalhavam pela universidade, carregando as vigas que completariam o tradicional predio. Alguns outros, como o da Faculdade de Educacao e o das engenharias, tambem estavam finalizados. "Era um poeirao que so vendo", conta o professor. Pelo resto da cidade, o cenario nao era muito diferente. A Asa Norte tinha apenas uma pista, ida e volta, e as casas eram barracos de madeira. Em agosto 1974, Aldo estava na plateia do 1º Seminario de Estudos dos Problemas Urbanos de Brasilia, com a presenca do urbanista Lucio Costa, criador do projeto da capital. Ele se emocionou ao ver o resultado, conta Aldo. "Fez um discurso, chorou, porque nao imaginava que Brasilia fosse se desenvolver tanto. Estava muito contente."

Foi o senador paraense Cattete Pinheiro, presidente da entao Comissao do Distrito Federal, quem convenceu o urbanista a participar do evento. "Como e que pode? Como e que voces conseguiram fazer tanta coisa? A impressao que levo e de espanto. E fantastico! E uma coisa comovente sentir essa cidade viva como esta. Brasilia e bela. Brasilia tem tudo para ser uma grande cidade", disse Lucio Costa no Senado lotado. "Os senhores me deem um pouco de tempo porque estou emocionado", relembra reportagem do Correio da epoca.

As conferencias e os debates duraram cinco dias. Em agosto do ano passado, para celebrar os 50 anos do emblematico encontro, o Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional (Iphan) sediou o 2º Seminario sobre os Estudos dos Problemas Urbanos de Brasilia.

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Ao longo da carreira, Aldo Paviani formou mais de mil alunos — essa e a conta que consegue fazer de forma ligeira. Mas a vocacao para ensinar e a generosidade em compartilhar o conhecimento permanecem. O professor repete as explicacoes pacientemente, e reforca pontos de vista que considera essenciais, inclusive em artigos publicados no Correio.

Apesar de ter se aposentado em 1996, Aldo Paviani contribui, sempre que e chamado, com o Nucleo do Futuro e no Nucleo de Estudos Urbanos Regionais do Centro de Estudos Avancados Multidisciplinares (Ceam) da UnB.

Aldo fundou o nucleo ao lado do professor Isaac Roitman, que morreu no ultimo dia 7, aos 86 anos, uma parceria que se transformou em grande amizade. "Ele me chamava de irmao e eu o chamava de irmao. Fiquei tristissimo de ve-lo morrer", lamenta.

O geografo foi eleito diretor do Ceam e tambem assumiu um mandato a frente do Instituto de Ciencias Humanas. No curriculo, conta que ficou faltando apenas uma cadeira no decanato. Mas as condecoracoes se acumulam: e Cidadao Honorario de Brasilia, pela Camara Legislativa do DF, e Oficial da Ordem do Merito Legislativo da capital federal.

Dos momentos marcantes em mais de 25 anos de docencia na UnB, ele se lembra de acontecimentos do periodo de ditadura militar. Em um dos episodios, uma aluna foi retirada a forca da sala de aula e implorava ajuda ao professor enquanto era carregada. "Nos entravamos ali pelo Minhocao Norte e havia uma fileira de soldados com fuzil e baioneta. Ficavamos muito constrangidos de passar por ali e ir dar aula." "Na UnB houve uma repressao forte e isso que me calou muito fundo", revela.

"Quando eu cheguei, a Geografia era no Minhocao Sul, no subsolo, porque era junto de Geociencia. Dava para sentir o cheiro da polvora da arma do militar que atirou em um estudante. Acho que o que me deixou mais triste foi isso", afirma.

Um aluno o denunciou a epoca, quando Amadeu Cury estava na Reitoria e Jose Carlos de Almeida Azevedo, na vice, dizendo que o professor era comunista. O episodio ocorreu depois de Aldo dar uma nota baixa ao discente e reprova-lo por excesso de faltas. "Ele confundiu critica com comunismo", diz. Azevedo estava pronto para assinar a demissao quando o reitor interveio e disse que perder Aldo significaria perder tambem Therezinha Paviani. E assim o casal permaneceu junto e na UnB.

Pensar o futuro e uma habilidade que Paviani desenvolveu ao longo da carreira. Como educador, as impressoes que carrega sobre o ensino no Brasil tem um tom critico, mas esperancoso. O principal gargalo que aponta e a evasao, especialmente no ensino medio. "O Brasil e muito fraco em termos educacionais. Entao, para mudar esse modelo, e necessario mudar esse circuito. Quando chega ao ensino medio, a pessoa cai fora para trabalhar. Tinha de haver uma maneira melhor de dar continuidade. Perde-se talentos", avalia.

A importancia da qualificacao, ele tira da propria carreira, depois do mestrado e doutorado no Brasil, Aldo teve a oportunidade de fazer o pos-doc em Austin, no Texas, no inicio da decada de 1983. A trajetoria foi interrompida em razao do diagnostico da mulher. "Nos sempre fomos companheiros. Onde eu ia, la estava ela", recorda-se.

Em outra oportunidade, o casal se mudou para Lisboa. Aldo havia sido contemplado por uma bolsa do Ministerio dos Negocios Estrangeiros de Portugal e Therezinha passou a estudar plantas africanas de Angola e Mocambique, por se tratarem de vegetacoes tambem tropicais. "Faz parte da educacao ter pesquisa. Eu acho que esta muito equivocado o ensino em que a pessoa assiste a aula, faz prova, pega o diploma e vai embora. Precisa ter mais conhecimento de pesquisa, conhecer a realidade", defende.

Isso, Aldo ensinou a seus alunos com maestria. Ele inaugurou as aulas de campo no Departamento de Geografia da UnB. Levava os estudantes num onibus para a recem- -inaugurada Ceilandia, Taguatinga, Brazlandia, Gama e Sobradinho.

"Nossas pesquisas sempre eram na periferia, exatamente para o aluno entrar em contato. Mais do que um nunca havia estado la." Nesse ponto, a visao de Paviani e critica. "Isso e uma coisa de que eu nao gosto no futuro da educacao: o estudante que passa quatro, cinco anos na universidade e nao da um retorno. Ele deve voltar e dar uma aula ou duas sobre a experiencia profissional dele, dar um retorno. E um estudo de graca. Quer dizer, ele tem um certificado educacional de muito valor e nao retribui. Essa minha ideia tem mais de 20 anos e ninguem implementa: um programa pelo qual um aluno volta e retribui", atesta o pioneiro.

E se ser professor e dar o exemplo, Aldo o fez com excelencia, sem nunca deixar de lado a missao incansavel de ensinar e de compartilhar o conhecimento, em retribuicao a tudo aquilo que a academia lhe legou. "A educacao foi tudo na minha vida."