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"A UnB é democrática por natureza", afirma a reitora, Rozana Neves

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Data Publicação

18/03/2025

02:00h

Os 40 anos da redemocratizacao do Brasil e o papel da Universidade de Brasilia (UnB) em defesa da democracia foram temas do CB. Poder — parceria entre o Correio e a TV Brasilia —, desta segunda-feira (17/3), que teve como convidada Rozana Naves, reitora da instituicao. As jornalistas Ana Maria Campos (D) e Adriana Bernardes, ela tambem destacou o trabalho desenvolvido para o inicio do semestre letivo, projetos para a valorizacao feminina no campo cientifico e a instalacao do Comite de Enfrentamento a Desinformacao.

Outro assunto abordado foi a posicao da UnB em relacao as acoes de um grupo de alunos que, identificando-se como de direita, apagou manifestacoes de outros estudantes com pensamento diferente. O episodio ocorreu na sexta-feira (14/3), no campus da Asa Norte, e a instituicao rechacou atos de intolerancia. Rozana Naves comentou ainda sobre a greve dos servidores tecnico-administrativos, que podem parar na quinta-feira (20/3). Aulas comecam em 24 de marco.

Vivemos em um momento no qual a democracia ainda e um debate e ha ameacas. Qual foi o papel da UnB no processo de redemocratizacao que o pais viveu?

A Universidade de Brasilia, historicamente, posiciona-se nesse campo de defesa a democracia. Nos tambem estamos planejando comemorar os 40 anos de redemocratizacao da propria universidade, as primeiras eleicoes para reitor. Eu costumo dizer que a universidade e uma instituicao democratica por natureza. Fazemos consultas a nossa comunidade, desde a eleicao para reitor ate os representantes dos centros academicos. Entao, em todas as instancias, o exercicio democratico faz parte do cotidiano da universidade. Alem disso, a formacao para a cidadania que a gente oferece por meio da nossa educacao superior tambem pretende alcancar indicadores importantes no comprometimento da sociedade com as praticas democraticas no nosso pais.

O Comite de Enfrentamento a Desinformacao foi instalado em 8 de janeiro deste ano. Como sera a atuacao desse Comite e como ele vai envolver a comunidade?

O Comite e um marco institucional para as instituicoes brasileiras desde a tentativa de golpe em 2023. A Universidade de Brasilia ja vem contribuindo em projetos junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que foram importantes nos ultimos anos para consolidar um arcabouco de enfrentamento a desinformacao. A gente deve lancar o primeiro edital em 31 de marco. A ideia e que a propria comunidade universitaria possa propor acoes de desenvolvimento de atividades nas unidades academicas e em articulacao com a comunidade externa. Entao, a gente entende que o enfrentamento a desinformacao passa, primeiro, por oferecer a sociedade informacao de qualidade. A universidade produz muita informacao, produz muita ciencia e produz solucoes para os problemas da sociedade. Entendemos que uma das linhas de acao pode ser a popularizacao da ciencia. Outra linha e a do enfrentamento as informacoes falsas que circulam, seja pelas redes ou mesmo no senso comum pelas comunidades. Levar a possibilidade de as comunidades realizarem o letramento digital da sociedade e importante para que a propria comunidade saiba distinguir o que e informacao falsa do que e a informacao util para tomada de decisao.

Qual sera o principal tema desse retorno as aulas? Ha alguma greve programada para esse retorno?

A gente teve uma preocupacao de ampliar o hall de atividades, especialmente em relacao a arte e a cultura. Estamos em uma parceria proficua com o Comite de Cultura do DF, e vamos ter varias atividades sendo desenvolvidas nos campus. Queremos discutir a relacao entre a geracao que ingressa na universidade e o mundo do trabalho. A gente quer concentrar as atividades para fora dos auditorios, para fora da sala de aula, e nisso temos tido a colaboracao das unidades academicas como um todo. Sobre a greve, temos uma acao judicial que ja vem se estendendo ha mais de 30 anos e houve uma decisao favoravel do Supremo Tribunal Federal (STF) aprovando os termos de liminar da sentenca em favor de docentes e tecnicos. A decisao para os tecnicos ocorreu em novembro e a gente ainda nao teve a implementacao efetiva desse percentual, que e uma parcela significativa dos vencimentos dos trabalhadores. A tese aprovada pelo STF e a da seguranca juridica, ou seja, qualquer familia que tenha hoje 26,05% da sua renda extinta nesse momento, geraria bastante dificuldade. O sindicato dos trabalhadores da Fundacao Universidade de Brasilia recorreu mais uma vez ao STF, portanto, a greve vai depender muito de como as coisas andam em termos de respostas efetivas para a implementacao dessa parcela. Entao, a gente precisa realmente aguardar a assembleia de quinta-feira para saber qual vai ser a deliberacao deles.

Vivemos uma situacao no pais em que sentimos uma intolerancia muito grande em uma polarizacao muito forte entre esquerda e direita. A politizacao em si nao e malefica, mas o problema e a intolerancia ao diferente, o seu oposto. Como a sua gestao pode contribuir para evitar que esse clima de confronto se instale tambem na UnB?

O primeiro passo e a gente internalizar a ideia de que a universidade desenvolve muitas atividades que sao direcionadas para a sociedade, que sao realizadas em prol da solucao dos problemas que vem de fora A gente tem uma origem vanguardista no pensamento de Darcy Ribeiro, de Anisio Teixeira. Darcy dizia muito isso, pensar o Brasil como problema. Entao, a universidade que se mostra para a sociedade como aquela em que ha uma parceria entre o campo cientifico e o campo dos saberes externos, que vem oriundos das comunidades, e nessa parceria constroi coletivamente um saber, ela esta desenvolvendo tambem uma forma de politica e de politizacao que e aquela original, a da polis, da cidade. Ou seja, desenvolvendo a capacidade de dialogo tambem entre os saberes que sao construidos cientificamente na universidade e os saberes que circundam a nossa comunidade e os problemas que estao la na sociedade. De fato, a intolerancia deve ser rechacada em todos os niveis. A universidade tem que trabalhar por uma cultura de paz, pelo desenvolvimento de propostas positivas para o pais, para a reducao das desigualdades, para a reducao dos problemas que sao os efeitos das emergencias climaticas. Entao, ha grandes temas que precisam ser trabalhados e qualquer tipo de intolerancia, de violencia, mesmo no campo politico, nao contribui para nada disso.

A UnB emitiu uma nota em relacao a uma atividade de um grupo de alunos da UnB, apagando manifestacoes que havia na universidade e sobre as quais eles eram contrarios. Fale sobre essa nota, da importancia de haver esse respeito, de a discussao ficar no campo das ideias, no debate.

O proprio projeto de gestao participativa que a gente inicia desenvolvendo essa semana traz essa perspectiva de trabalhar a comunidade para que possamos debater ideias no campo democratico. Ou seja, a democracia e essa possibilidade que a gente tem de desenvolver o pensamento, de confrontar ideias com respeito, com tolerancia, de forma a avancar no conhecimento. E qualquer pratica que venha a ser impositiva, autoritaria, representa realmente um ataque a esses valores democraticos que a instituicao, as universidades, de maneira geral, preconizam e que e a nossa essencia enquanto uma Republica. Portanto, qualquer debate de ideias tem que ser feito de forma a nao romper os avancos civilizatorios que a gente vem alcancando ao longo dos tempos. A universidade tem estado muito atenta a essas praticas. A gente tem atuado institucionalmente para coibir praticas dessa natureza e queremos uma semana de boas-vindas muito tranquila. Estamos trabalhando intensivamente para que as atividades ocorram de forma plena e que a recepcao aos novos estudantes seja feita pelas unidades, com as atividades academicas e culturais que a universidade pode oferecer e que a comunidade deve aproveitar.

Em quatro meses de gestao da senhora, quais foram as principais medidas adotadas?

No campo da gestao, ampliar a participacao das unidades e ouvir a comunidade tem sido o maior desafio deste inicio, queremos manter como uma proposta de gestao. Lancamos essa semana o projeto de gestao participativa, no qual tem uma equipe trabalhando ha um mes. A ideia e a gente implementar mecanismos de gestao participativa para discutir grandes temas da universidade e fazer isso junto com a comunidade academica. Neste mes, tambem estamos com uma programacao relativa ao Mes das Mulheres com o tema de enfrentamento ao assedio. E uma pauta tambem muito importante para nos, para alem da equidade de genero, que sempre e debatida no mes de marco. Entao, estamos com o edital aberto para a comunidade tambem propor materiais de campanha para o enfrentamento do assedio. Devemos desenvolver cursos para os gestores nessa tematica. Do ponto de vista da infraestrutura, fizemos uma grande reorganizacao na universidade e estamos conseguindo reduzir enormemente o numero de orgaos de servico em aberto. Isso vai gerar um impacto agora para o primeiro semestre de 2025 relativo a instalacao das turmas. Temos problemas historicos com esse encaixe de turmas em salas de aula e, com a recuperacao da infraestrutura de varias salas, vamos conseguir praticamente reduzir o numero de salas e de turmas nao alocadas de mil no ultimo semestre para 20 turmas.

A UnB completara 63 anos. Como e ser a segunda reitora em todo esse tempo de universidade?

E importante dar continuidade as mulheres na gestao. A gente tem tentado ampliar a perspectiva da gestao nas unidades administrativas a participacao das mulheres. Desenvolver a lideranca feminina nos diversos setores nao e facil. A gente sabe que ha setores que tem uma tradicao de privilegio dos homens. Por exemplo, nas atividades cientificas, embora hoje a gente ja tenha uma maioria de projetos liderados por mulheres e mesmo tendo coordenacao por mulheres em projetos de algumas areas, e restrita. E preciso um conjunto de acoes que induzam a participacao das mulheres em nichos especificos. Ja e um caminho que a Universidade de Brasilia vem percorrendo, mas um conjunto de acoes, e acho que a tematica do "8M" deste ano vai ajudar bastante a gente a problematizar essas diferencas. Tivemos a grata oportunidade de participar do Premio CNPq Mulheres e Ciencia e foi premiada a professora Debora Diniz, na area de Ciencias Sociais e Humanidades. E isso projeta a figura da mulher no cenario nacional e internacional. A gente espera que tudo isso sirva de farol para as meninas e as mulheres que estao iniciando o seu percurso na ciencia.

*Estagiario sob a supervisao de Malcia Afonso