UnB lança ferramenta para mapear estrangeiros na comunidade acadêmica
Em busca de conhecimento ou fugindo de guerras e regimes antidemocraticos, 976 alunos e professores estrangeiros estudam e ensinam atualmente na Universidade de Brasilia (UnB). O mapeamento e fruto da nova plataforma DataMigra, produzida pelo Observatorio das Migracoes Internacionais (OBMigra/UnB) e a Secretaria de Assuntos Internacionais (INT/UnB).
Veja o levantamento:
Segundo a professora de Linguas Estrangeiras Aplicadas na UnB e coordenadora da Catedra Sergio Vieira de Mello, da Agencia da Organizacao das Nacoes Unidas para Refugiados (Acnur/ONU), Susana Martinez, a plataforma podera ajudar no aperfeicoamento do acolhimento de imigrantes refugiados. Segundo a educadora, nascida na Espanha, essas pessoas enfrentam barreiras linguisticas, preconceito e muitas vezes desconhece direitos que tem em territorio brasileiro.
“Ha cursos com trajetorias mais acolhedoras, outros nao. Tem estrangeiros com relatos de experiencias maravilhosas, perfeitas. Outros, lamentavelmente, nao”, comentou. A lingua e uma das principais barreiras. Martinez tambem coordena o projeto Mobilang, criado para estudar os fenomenos de contatos linguisticos decorrentes das mobilidades humanas, questionando a nocao de fronteira, com uma abordagem sociolinguistica.
O Mobilang oferece interpretes para estrangeiros, nao apenas para a comunidade da UnB, mas para todo Brasil. “Em tempos atuais, onde os discursos anti-imigracao estao recrudescendo, o Brasil tem um Lei focada no imigrante como uma pessoa com direitos. E bom vermos mais e mais acoes para que esses discursos nao nos atinjam. Precisamos uma resposta mais humanizada para pessoas que precisam sair de seus paises de origem”, destacou.
Estudantes e professoras estrangeiras:
A UnB acolhe atualmente com 561 alunos refugiados e imigrantes. Os 10 principais paises de origem dos discentes sao: Colombia, Cuba, Peru, Mocambique, Franca, Angola, Argentina, Haiti, Guine e Bolivia. O numero de docentes na mesma situacao e de 415. No caso dos educadores, as nacionalidades mais presentes sao: Colombia, Argentina, Italia, Estados Unidos, Peru, Espanha, Alemanha, Franca, Cuba e Portugal.
Barreiras
A haitiana Kenderloude Simeon e estudante do Programa de Estudantes-Convenio de Graduacao (PEC-G) e cursa Enfermagem na UnB. Para ela, o modelo de acolhimento da UnB precisa melhorar, e os alunos internacionais deviam ser apresentados para a comunidade academica, pois levou um ano para conversar com alguem da sua turma, falando quem e e de onde vem. “Posso dizer que deixou a desejar o meu acolhimento”, contou.
A estudante contou que alguns cursos contam com poucos alunos internacionais, por isso, sem o acolhimento da turma, muitos acabam isolados. Ela afirma tambem que seria bom se os estudantes PEC-Gs voltassem a ter contato com a Secretaria de Assuntos Internacionais (INT), pois e a instituicao que os representa na UnB. “Hoje temos zero contato com INT e nao e porque nao queremos”, contou.
“Sao muitas barreiras, mas a principal e a linguistica, principalmente no inicio da graduacao. Apesar dos problemas e barreiras, Kenderloude ama estudar na UnB. “Para mim, e um sonho realizado. E por isso que algumas coisas ruins nao me atingem tanto. Sei quanta gente gostaria de estar no meu lugar. Por isso, sempre tento ver o lado bom para me erguer. Estudar na UnB me deixa muito feliz. Tudo o que sou hoje e gracas a UnB”, argumentou.
Nascida no Paquistarao, Roheen Naz e estuda Odontologia na UnB. Para ela, estar no campus e um sonho. A estudante decidiu mudar de curso, porque nao condicoes de pagar pelos materiais didaticos exigidos pela graduacao. “Odontologia e curso muito caro. Quando entrei, pensava que ia ser tudo de graca, porque e uma universidade federal. Em outros paises e diferente. Preciso gastar R$ 6 mil. Se nao tiver dinheiro, vou perder a matricula. Eu desisti. Por causa do problema financeiro, para mim, ja era”, revelou.
Entristecida, a jovem planeja migrar para Relacoes Internacionais. Segundo ela, os estrangeiros deveriam receber as informacoes detalhadas do curso, inclusive com possiveis gastos, antes de comecarem os estudos. Segundo Roheen, a barreira linguistica atrapalha os estrangeiros nas provas. Por isso, defende a adocao de um modelo de avaliacao, onde os alunos possam escolher a lingua aplicada nos exames. “Muitos alunos estrangeiros nao sabem os beneficios que tem direito. Era preciso criar uma forma de informar melhor os estudantes”, completou.
Divisor de aguas
Elisha Rani tambem nasceu no Paquistao e cursa Relacoes Internacionais. “Vim para o Brasil com 10 anos. Estudei o ensino fundamental aqui. Entao, a relacao com colegas e professores esta sendo totalmente diferente. O ambiente e muito bom, muito multicultural. Voce ve gente de todos os tipos, jeitos culturas. Entrar na UnB foi um divisor de aguas para mim. No Paquistao, em geral, as universidades sao pagas. La nao teria essa oportunidade”, comentou.
Segundo Elisha, a UnB oferece programas e projetos de extensao para acolhimento dos estrangeiros, inclusive para sanar pendencias burocraticas. Para ela, a universidade pode melhorar as acoes para integracao, como por exemplo com dias de exposicao cultural onde os estrangeiros apresentam um pouco de suas culturas para a comunidade. No futuro ela espera trabalhar em embaixadas e projetos de apoio a imigrantes e direitos humanos.
Elisha repudia o crescente discurso contra a imigracao visto em diversos paises atualmente. “E um discurso elitista que nao reconhece a sua propria historia colonizadora. E um discurso que vai contra as leis humanitarias. Migrar e um direito”, ponderou.
Segundo o coordenador geral do OBMigra, o professor e doutor Leonardo Cavalcanti, a UnB tem um papel central na producao de conhecimento cientifico voltado para desafios sociais concretos. Por meio do DataMigra BI, ferramenta desenvolvida pelo observatorio, pesquisadores e gestores passaram a ter acesso a um banco de dados interativo e atualizado dos migrantes e refugiados na universidade.
“Para a UnB, o mapeamento permite um planejamento mais eficiente para acolher essa populacao, desenvolvendo politicas institucionais baseadas em dados reais. Para a comunidade academica, representa uma oportunidade de pesquisa interdisciplinar, ampliando o campo de estudos sobre migracao e educacao no Brasil. Para os proprios migrantes e refugiados, essa iniciativa fortalece sua visibilidade e direitos, garantindo que suas necessidades sejam reconhecidas e contempladas nas politicas educacionais da universidade”, explicou Cavalcanti.
De acordo com o pesquisador, ao tornar esses dados acessiveis e transparentes, a UnB contribui nao apenas para seu proprio aprimoramento institucional, mas tambem para o desenvolvimento de politicas publicas em nivel nacional. Para o pesquisador, dentre os desafios, ja identificados, destaca-se a necessidade de ampliar politicas de permanencia estudantil, garantindo nao apenas o acesso a universidade, mas tambem condicoes adequadas para que esses estudantes consigam concluir seus cursos.
Desafios para a UnB e outras instituicoes:
– Programas especificos de moradia e alimentacao, considerando as dificuldades enfrentadas por estudantes imigrantes para alugar casas, muitas vezes devido a exigencia de fiadores ou comprovacao de renda formal, que eles nao possuem.
– Ampliacao de oportunidades de estagio, bolsas de pesquisa e programas de extensao, como alternativa para garantir subsistencia e engajamento academico, visto que estudantes imigrantes nao podem trabalhar formalmente no pais.
– Apoio juridico e institucional para facilitar o acesso a direitos basicos e orientacao sobre regularizacao migratoria, uma vez que muitos estudantes desconhecem ou enfrentam barreiras burocraticas para acessar beneficios disponiveis.
– Oferta de suporte psicossocial e redes de apoio academico, considerando que a adaptacao a um novo pais e a um novo sistema educacional pode gerar desafios emocionais e academicos.
– No caso dos refugiados, a situacao e ainda mais desafiadora, pois muitos chegam sem documentacao academica completa. A UnB pode avancar na facilitacao da aceitacao de documentos e validacao de diplomas, garantindo que a burocracia nao seja um entrave ao direito a educacao.